Ele hesita.
Diz que sente, mas não fala.
Diz que pensa, mas não sabe se pode dizer.
Há filhos no meio, há medo no meio, há o meio de um caminho que não se sabe se termina ou começa.
“Se eu dissesse o que sinto, talvez ela fosse embora”, ele me diz com os ombros encolhidos, a respiração contida, o olhar perdido entre o chão e o passado.
Eu convido o medo pra sentar com a gente.
Peço que ele fique ali mais um pouco, sem pressa.
A gente escuta o silêncio. A gente escuta a tensão.
E então, ele escuta em mim uma voz que talvez fosse a dele, se ele conseguisse respirar por dentro do medo:
“Se for pra continuar como estava… eu não quero mais.
Não é sobre a outra pessoa.
É sobre mim.
É sobre nós.
Eu quero algo novo.
Se for contigo, que seja diferente.
E se for diferente, eu fico.”
Ele sorri. Pela primeira vez em muito tempo, ele sorri.
Não é uma decisão.
É só o gesto de um desejo que encontrou espaço pra aparecer, ainda que tímido.
E minha tarefa não é guiar esse desejo, nem decifrá-lo —
é apenas sustentar a escuta de um corpo que começa a fluir.
Paulo Barros
Psicólogo
CRP 07/39646
