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01 de julho de 2025
“Se for pra ser igual, eu não quero mais”

Ele hesita.

Diz que sente, mas não fala.

Diz que pensa, mas não sabe se pode dizer.

Há filhos no meio, há medo no meio, há o meio de um caminho que não se sabe se termina ou começa.

“Se eu dissesse o que sinto, talvez ela fosse embora”, ele me diz com os ombros encolhidos, a respiração contida, o olhar perdido entre o chão e o passado.

Eu convido o medo pra sentar com a gente.

Peço que ele fique ali mais um pouco, sem pressa.

A gente escuta o silêncio. A gente escuta a tensão.

E então, ele escuta em mim uma voz que talvez fosse a dele, se ele conseguisse respirar por dentro do medo:

“Se for pra continuar como estava… eu não quero mais.

Não é sobre a outra pessoa.

É sobre mim.

É sobre nós.

Eu quero algo novo.

Se for contigo, que seja diferente.

E se for diferente, eu fico.”

Ele sorri. Pela primeira vez em muito tempo, ele sorri.

Não é uma decisão.

É só o gesto de um desejo que encontrou espaço pra aparecer, ainda que tímido.

E minha tarefa não é guiar esse desejo, nem decifrá-lo —

é apenas sustentar a escuta de um corpo que começa a fluir.


Paulo Barros

Psicólogo

CRP 07/39646