Desde ontem essa frase tem ecoado em mim. Porque talvez não seja apenas a dor o que mais assusta, mas o fato de não haver ninguém ao lado quando ela vem.
Sentir, por si só, já exige entrega. Mas sentir sem apoio pode ser desesperador. Cada pessoa, diante dessa travessia solitária, encontra saídas possíveis: algumas desenvolvem defesas sutis, outras constroem padrões de evitação, há quem se endureça, quem fuja, quem anestesie. Quem se agarre ao que puder para não sentir de novo, sozinhe.
Como psicoterapeutas, especialmente na Gestalt-terapia, é essencial que possamos reconhecer isso. Não para patologizar o gesto que a pessoa encontrou, mas para compreender a sua função: sustentar o insustentável, na ausência de companhia.
Quando esquecemos disso, é fácil apressar o processo. É fácil exigir mudanças antes de que haja apoio real. É fácil querer que a pessoa abandone sua defesa sem ter experimentado antes a possibilidade de não estar sozinha.
O que transforma não é tirar a dor. É não sair de perto quando ela vier.
Paulo Barros
Psicólogo
CRP 07/39646
