Às vezes, a compulsão não entra como invasora.
Ela chega de mansinho, sem bater.
No começo, só encosta na porta do corpo.
Traz um alívio tímido, um calor no frio da noite.
É que a casa estava tão vazia.
Fazia tempo que ninguém visitava
pra escutar os choros abafados nos travesseiros.
Ela, a compulsão, não julga,
não pergunta,
não exige conversa difícil.
Ela apenas faz companhia.
E companhia, quando se está só,
é algo difícil de negar.
Mas com o tempo,
ela começa a mover os móveis,
a mudar a decoração,
a colocar sua voz nas nossas escolhas.
O que foi abrigo vira prisão.
O que foi gesto de cuidado vira imposição.
E nem sempre é fácil perceber
quando a visitante virou moradora.
Ainda assim,
não há culpa em ter aberto a porta.
Só um corpo que tentou se manter de pé
no meio da falta.
Paulo Barros
Psicólogo
CRP 07/39646
